JORGE LEVILeviarte · Bailarino · Coreógrafo · Realizador

Conto de Inverno

Por Jorge Levi

I

Nessa noite pesada de Inverno, estava eu irritado comigo mesmo e com a vida, que culpa nenhuma tinha da minha e da nossa estupidez e, pensava ansiosamente como recuperar tantos anos perdidos, tanta vida deitada fora, tantas oportunidades... lançadas ao diabo...

Era uma noite de Inverno, chuvosa, fria; vivia eu em Paris num 7º andar e da janela da sala ao som de um smooth jazz de Bernard Sass, via o Rive Gauche e os vestígios da Torre Eiffel em ruína à memória de mais um dos nossos disparates do terrorismo, sempre sinal de um mundo dividido, em crescente desentendimento, até que um dia... sabe-se lá o quê!!!!!

Estamos em 1 de Março de 2184 e acabo de reler uns textos de Luís Borges, outro de Manuel Vincent e outro de Edar Levi, encontrados num livro de textos editados por este último, meu tetravô (julgo eu).

Achei muito curioso o que pensava o meu longínquo avô aos 14 ou 15 anos; julgava ele que quando tivesse quarenta anos se viveria numa era espacial... e sem automóveis. Era grande o seu medo, pois era enorme a sua vontade na altura de conduzir estas máquinas. Conduziu-as afinal até ao seu fim de vida e ao que acredito usufruiu mesmo de uma excelente colecção destas viaturas... ... ... Mas bem ao contrário do que ele pensava, ainda hoje se viaja de automóvel (se ele adivinhasse quão lenta é a evolução). Ainda hoje se faz tudo ou quase, característico daquela época.

Claro está que com a nossa dificuldade em aprender, evoluímos muito lentamente e a mais grave ainda, fazemos com que, historicamente, a humanidade cometa sempre os mesmos erros.

“A humanidade criou uma vida de trabalho, sem qualquer direcção existencial, uma vida anti natura” – dizia o meu tetravô.

Felizmente, acordou ele a tempo e afastou-se para o mar, onde percorreu primeiro, o mediterrâneo agora inavegável, depois, todos os oceanos, acabando na Austrália aos cento e cinco anos e ao que sei, completamente feliz, como muito poucos naquela época... e em todas, devo acrescentar.

A humanidade nunca soube viver, de facto. Sempre foi e será cada vez mais, infeliz.

Bom!... pensei eu como voltar atrás no tempo e recuperar o tempo perdido.

Iria eu a tempo de ser feliz, de sentir o pulsar da vida, de sentir que a vida tem encanto?

Que deveria eu fazer? Como voltar aos meus quarenta anos?... Que fazer para voltar atrás trinta anos?

Queria levar uma vida nova, completamente nova, com mais sentido existencial, com mais prazer, com mais paixão, com mais encanto...

Estava decidido a fazer o que muitas vezes tinha pensado fazer... mas como?

Como voltar atrás e viver hoje???!!!

Sabia que era possível dar a volta ao mundo para trás de tal forma que festejaria sempre a entrada do novo ano, dezoito vezes, como faziam alguns magnatas na passagem para um novo ano.

Mas como chegar ao destino, antes de ter saído do ponto de partida???????

Fui arrastado por este pensamento de tal forma que comecei a acreditar ser possível reunir estes dados com a capacidade que estas naves têm de viajar fora do espaço terrestre, sem atrito nem acção da gravidade, alcançando assim uma velocidade próxima da velocidade da luz.

Se este voo se prolongar em circunferência em volta da terra e fora da sua acção com combustível suficiente para proporcionar injecções de aceleração contínuas, ultrapassar-se-ia a velocidade da luz e dar-se-ia início a uma destemporalização da vida como a conhecemos e a uma passagem a outro nível existencial, como ainda não conhecemos, mas onde o tempo se revelaria de outra forma e sem se mostrar uma condicionante fatal, quero acreditar.

Comecei a pensar na viagem e a conversar com alguns amigos sobre a possibilidade de esta nos proporcionar uma passagem para outra existência. Estas conversas encontraram uma produtiva interacção junto dos meus amigos e de pessoas que fui conhecendo, o que para mim foi surpreendente.

O problema mais grave que se nos foi deparando, foi encontrar um piloto e a sua nave, para esta viagem.

Nos encontros semanais que sempre realizei em minha casa e agora mais sensibilizados por este tema, fui reunindo alguns amigos mais próximos e mais interessados e com estes vieram ainda jovens, homens e mulheres de todas as idades, gente encantadora e outra estranha, alguns que ficaram e muitos que nos foram abandonando.

Passamos “soirées” muito animadas, conhecemos gente deliciosa, travamos amizades anteriormente inimagináveis, vivemos momentos de prazer, de poética e de encanto extraordinárias.

Com isto, passaram cerca de dois anos, até que uma noite, entrou pela minha porta, juntamente com uns amigos nossos, um piloto galáctico. Este facto revelou-se determinante para o nosso projecto. Depois de uma noite de diálogo e troca de impressões, foi possível reavaliar a viagem. Este encontro, possibilitou-nos encarar a situação com mais profundidade pois embora tenha levantado algumas questões técnicas anteriormente desconhecidas, não condicionou contudo a viabilidade para a concretização do projecto inicial...

Reunimos, os mais ousados. Ficámos sete; quatro mulheres e três homens, todos entre os trinta e os cinquenta anos, excepto eu que tinha já setenta e sete anos. Preparámos tudo e destinámos o dia 18 de Junho, para o início da nossa viagem...

Três meses depois e às dez horas da manhã, encontrámo-nos todos na pista, prontos para dar início a esta viagem, que entretanto se tinha tornado mediática.

A pergunta mais curiosa que um jornalista me fez, foi: Vão para onde, procurar a felicidade?

Eu respondi... Não sei para onde vou... mas não fico por aqui.

Vou para descobrir mais, vou para partilhar experiências e para onde possa ser livre!

Lembrei-me entretanto dos boémios parisienses acerca de quem o meu avô escrevia e que muito prezava e cujas máximas eram: Verdade, Beleza, Liberdade e Amor, sobretudo muito Amor. E continuei: Procuramos as razões que nos fazem continuar a viver, mas sobretudo AMOR, muito Amor!

O jornalista parou e depois sorriu. Desejou bom regresso!

A viagem custou-nos tudo o que tínhamos o que não era muito, pois apenas vivíamos com o agradável conforto que os empréstimos vitalícios nos proporcionavam.

O entusiasmo era enorme e todos sabíamos que o futuro próximo era incerto e desconhecido, mas a vontade de sermos autenticamente nós, renascidos, era grande.

... Muita alucinação... muita poética e pouca certeza... ... ou mesmo nenhuma...

Cinco horas depois, viajávamos já numa órbita a trezentos km da terra e a uma velocidade estabilizada de 100.000km/h. Faltava-nos ainda muito para a velocidade da luz (1.080.000.000 km/h).

Dava-se agora início e de forma regular, a injecções de trinta segundos de combustível que proporcionavam uma aceleração acrescida de 50.000km/h, aceleração que era directamente proporcional à velocidade que detínhamos naquele instante. Ao alcançar os 500.000km/h e numa órbita agora de 2.000km da terra, a emoção era grande. No espaço e com a ausência de gravidade esta velocidade não se sente nem tão pouco os momentos de aceleração.

Alcançamos algumas horas depois os míticos 1.000.000km/h, velocidade que muito poucos tinham já experimentado. A esta velocidade houve que alargar de novo a trajectória tendo a nave ficado afastada da terra cerca de 10.000Km. No dia seguinte ao acordarmos navegávamos já a 100.000.000km/h e numa trajectória elíptica a mega km da terra. No terceiro dia, ao meio-dia estávamos a fazer 480.000.000km/h e tudo estava bem.

Ao fim do quinto dia, eram sete horas terrestres estávamos muito próximos dos 800.000.000km/h. Finalmente no quinto dia, ao final da manhã estavam anunciados os 1.000.000.000Km/h e tudo OK. Aproximava-se o momento ansiosamente esperado.

Que iria suceder com a ultrapassagem da velocidade da luz?

Pouco demorou para sabermos...

II

1.070.000.000Km/h e tudo começou a ser estranho. Um estado de sonho apoderou-se de todos nós... como se tudo fosse irreal, como se não tivéssemos corpo, mesmo como se não existíssemos. 1.081.000.000km/h. Passámos... os números sucedem a uma velocidade alucinante, apenas o marcador regista alguns momentos importantes, estamos todos vivos.

Seremos anjos já? Comenta a Helga. Não fazemos ideia. Olhamos para fora e temos a imagem das curtas asas da nave a despegarem-se – enorme susto. Entregamo-nos à eternidade....

Mas não... as asas são a imagem passada da nossa nave. Vemos a nave segundos atrás. Cá dentro nada se passa a não ser a noção de etéreo do nosso corpo, da nossa vida...

As câmaras da retaguarda captam já a imagem da nossa nave a perseguir-nos e a perder terrenos, com imagens sucessivas no nosso encalço. A sensação é tão estranha, pois ao mesmo tempo que a imagem da nossa nave ganha distância, a nossa imagem vai embater em nós. É uma perseguição alucinante que peca por uma enorme falta de definição. Estamos para já e em momento de séria análise, em velocidade estabilizada de 1.245.000.000km/h numa rota que desconhecemos!

Tudo parecia estar razoavelmente bem. Não, nós estávamos certamente bem, mesmo que já não fossemos nós, ou fossemos apenas existências sem corpo, mutantes de outro nível existencial... mas nada nos doía e sentíamo-nos profundamente bem.

E agora?

Lá fora as imagens deixaram passaram a ser muito pouco nítidas e os instrumentos de bordo pecavam por falta de precisão, de tal forma que o computador de bordo, oscilava a velocidade com variações de cerca de 1.000.000.000Km/h. A rota estava indefinida e os pontos de referência externos como os planetas e algumas estrelas, mudavam permanentemente de posição relativa, o que era assustador. Não sabíamos para onde íamos nem se algo estava de facto na nossa direcção.

Discutíamos então, se devíamos diminuir a velocidade para valores inferiores à velocidade da luz, ou deixarmos estabilizar a situação durante meia hora, como valor seguro, pois os dados anteriores permitiam-nos estar certos de que a rota estabelecida anteriormente, não colidia com nada durante esse espaço de tempo.

Optamos pela segunda decisão. Aguardar; analisar a situação e compreender os factos. Não tínhamos chegado até ali para abandonar tão rapidamente um momento único pelo qual tanto tínhamos esperado. Mas era necessário ter muito cuidado e muita atenção para não colocar a nossa “existência” em risco.

Em cinco minutos, um sucessivo desencadear de situações, tudo mudou.

Primeiro, uma brecha visual dentro da nave começou a nascer e a desenvolver-se. Como se de uma folha a rasgar, se tratasse. Uma forte tremura na imagem, registada pelos nossos olhos, surgiu como impressão. A nave e o exterior, começaram a misturar-se, mas sempre sem perdermos o conceito de estarmos no interior da nave e sem termos a noção de velocidade, nem tão pouco de deslocação. Uns e outros, de nós, deslocávamo-nos de um espaço definido pela brecha para outro, sem nada nos acontecer e a partir daí o toque entre uns e outros passou a ser menos intenso, depois apenas... visual e progressivamente menos nítido. Ao mesmo tempo, os instrumentos da nave tornaram-se inactivos e o seu controlo desapareceu por completo. Por incrível que pareça, não nos assustámos nem sentimos medo, tal era o irreal da situação por um lado, a velocidade em que sucediam situações novas por outro e ao mesmo tempo experimentávamos uma existência etérea muito difícil, ou mesmo impossível de descrever.

A seguir, em poucos segundos, a noção de espaço físico transformou-se. A nave tinha desaparecido, não o seu espaço onde todos nos movíamos, mas o seu limite como nos habituámos a conhecer. O espaço celestial tinha dado início a uma transformação visual ininteligível para nós, na altura. Encontrávamo-nos num espaço em permanente reconstrução onde os arquitectos eram invisíveis. O espaço revelava-se permanentemente transformado e sempre novo, não no sentido em que conhecemos o termo, mas num novo sentido existencial, embora compreendido inteligentemente da mesma maneira.

Estávamos em casa de novo... mas numa outra casa, numa outra dimensão que não compreendíamos, mas na qual confiávamos. Tudo era diferente do que conhecíamos, a organização estrutural do espaço, a noção de tempo, o estar vivo e sentir isso de outra maneira.

Tínhamos encontrado qualquer coisa que procurávamos, que não entendíamos. Este espaço era-nos confortável, mesmo afável e que nos parecia a priori como confiável.

Mas e depois... o que se seguiria... como viveríamos... todas as perguntas que estamos habituados a fazer, renasceram nas nossas cabeças!!!!

Seria assim o Céu?

Seriam então verdade as histórias que nos tinham contado?

Estaríamos afinal mortos?????!!!!!!!!

Seria isto o fim????

III

Nada disto era verdade...

Tinha eu acabado de acordar com o despertador do telemóvel que a minha namorada me tinha oferecido no dia 11 de Novembro de 2004.

Eram sete horas da manhã e devia levantar-me para o banho.

Mas hoje, 11 de Março de 2004, novo atentado terrorista, desta vez em Espanha, 200 mortos e setecentos feridos.

Isto não foi um sonho... é mesmo verdade.

E o mundo continua assim... sem rumo... sem interesse... sempre na mesma!

11 de Março de 2004
Jorge Levi