Elogio aos Criadores
Por Jorge Levi
Quantos criadores.
Quantos artistas maravilhosos.
Às vezes detenho-me apenas nesse pensamento, e ele basta para suspender o peso dos dias. Basta imaginar todas as mãos que existiram antes das nossas, todos os olhos que contemplaram o mundo e recusaram aceitá-lo apenas como era. Porque houve sempre alguém que olhou para uma pedra e viu um rosto. Alguém que ouviu o vento e descobriu nele uma melodia. Alguém que encontrou, na tristeza, um poema; na madeira, um violino; na tinta, um universo.
Que prodigiosa criatura é o ser humano quando cria.
Não quando domina.
Não quando conquista.
Não quando acumula riquezas ou ergue fronteiras.
Mas quando cria.
Porque criar é dizer ao caos que ele pode tornar-se ordem sem perder o mistério. É oferecer forma ao invisível. É construir uma ponte entre aquilo que existe e aquilo que ainda espera nascer.
Desde a primeira mão impressa na parede de uma caverna até à mais recente obra concebida num pequeno estúdio perdido entre cidades e montanhas, atravessa a humanidade um mesmo impulso: deixar um sinal de beleza antes que a noite nos alcance.
E talvez seja essa a nossa verdadeira vocação.
Não vencer.
Não possuir.
Mas revelar.
Quem poderá contar todos os artistas que viveram?
Quem poderá dizer o nome do homem que primeiro desenhou um animal à luz vacilante do fogo? Quem recordará a mulher que inventou um padrão que ninguém antes imaginara? Quem conhece o músico que morreu sem jamais ouvir os aplausos que o futuro lhe devia?
São incontáveis.
Mais numerosos do que as páginas da História conseguem guardar.
A História lembra os generais.
A beleza lembra os criadores.
Há escultores cujas obras sobreviveram aos impérios que julgavam protegê-las. Há poemas que atravessaram mil anos enquanto os palácios dos reis se converteram em pó. Há canções populares que venceram o esquecimento sem jamais conhecerem o nome de quem as compôs.
Que estranho triunfo.
A arte não conquista territórios.
Conquista o tempo.
Enquanto uma espada termina o seu trabalho quando a batalha acaba, uma obra de arte começa precisamente aí. Continua a respirar. Continua a transformar. Continua a encontrar novos olhos, novos corações, novas interpretações.
Cada geração recebe dos artistas uma herança invisível.
Aprendemos a ver porque alguém pintou.
Aprendemos a ouvir porque alguém compôs.
Aprendemos a sentir porque alguém escreveu.
Aprendemos a sonhar porque alguém ousou imaginar primeiro.
E talvez nunca lhes tenhamos agradecido o suficiente.
Quantos deles passaram fome para defender uma visão?
Quantos foram ridicularizados por acreditarem numa beleza que os outros ainda não conseguiam compreender?
Quantos morreram convencidos de que tinham falhado, sem suspeitar que séculos depois seriam abrigo para milhões de almas?
A criação é um ato de esperança.
Quem cria acredita, ainda que por instantes, que vale a pena acrescentar alguma coisa ao mundo.
É um gesto profundamente generoso.
O escultor oferece-nos a sua paciência.
O pintor oferece-nos o seu olhar.
O escritor oferece-nos a sua solidão transformada em linguagem.
O músico oferece-nos o seu silêncio convertido em som.
O ator empresta-nos vidas que nunca viveremos.
O bailarino torna o corpo uma oração.
O arquiteto convence a pedra a desejar o céu.
O artesão ensina as mãos a pensar.
O fotógrafo captura aquilo que o tempo jurava levar.
Todos diferentes.
Todos indispensáveis.
Porque cada forma de criação amplia um pouco a humanidade.
Sem os artistas, haveria cidades.
Mas faltariam horizontes.
Haveria casas.
Mas talvez não existisse o verdadeiro sentido de lar.
Haveria palavras.
Mas poucas alcançariam o coração.
Haveria dias.
Mas seriam apenas dias, incapazes de se tornarem memória.
Os artistas não ornamentam a existência.
Eles revelam-lhe a profundidade.
São aqueles que nos recordam que uma árvore nunca é apenas uma árvore, que um rosto nunca é apenas um rosto, que uma lágrima nunca é apenas água.
Há sempre uma história escondida.
Há sempre um universo inteiro por detrás das aparências.
E são eles quem nos ensinam a vê-lo.
Talvez por isso a arte sobreviva a todas as crises.
Sobrevive às guerras.
Às epidemias.
Às ditaduras.
À pobreza.
À ignorância.
Sobrevive porque nasce do lugar mais resistente do ser humano: a necessidade de significar a própria existência.
Enquanto houver alguém capaz de escrever um verso à luz de uma vela, de cantar numa rua vazia, de desenhar numa folha amarrotada, de talhar madeira, de moldar barro, de filmar um instante, de dançar apesar da dor, a humanidade continuará a recusar o desespero.
É por isso que toda a verdadeira obra de arte é um ato de resistência.
Ela afirma que ainda existe beleza.
Que ainda existe verdade.
Que ainda existe espanto.
E enquanto houver espanto, haverá futuro.
Imagino, por vezes, um mundo onde cada criador fosse ouvido com a mesma atenção concedida aos poderosos.
Um mundo onde a sensibilidade fosse considerada uma forma de inteligência.
Onde a beleza fosse entendida como necessidade e não como luxo.
Onde ensinar uma criança a desenhar fosse tão importante quanto ensinar-lhe a contar.
Onde a música fosse reconhecida como alimento.
Onde os livros fossem vistos como jardins.
Onde os museus fossem tratados como templos da memória humana.
Talvez esse mundo parecesse menos violento.
Talvez descobríssemos que a civilização não se mede pela altura dos edifícios, nem pela velocidade das máquinas, nem pela quantidade de riqueza acumulada.
Mede-se pela delicadeza com que cuida dos seus criadores.
Porque eles são os guardiões do invisível.
São aqueles que escutam antes dos outros.
Que veem antes dos outros.
Que sentem antes dos outros.
E depois regressam para nos contar aquilo que descobriram.
Quantos criadores.
Quantos artistas maravilhosos.
Se pudesse reunir todos os que existiram, dos mais célebres aos completamente esquecidos, faria apenas uma coisa.
Levantaria o olhar.
E permaneceria em silêncio.
Porque há gratidões que nenhuma palavra consegue conter.
Foram eles que impediram a humanidade de se reduzir ao instinto.
Foram eles que transformaram pedra em catedral, tinta em eternidade, som em consolo, palavra em esperança.
Foram eles que ensinaram o coração humano a reconhecer-se a si próprio.
E quando, um dia, perguntarem qual foi a maior obra da humanidade, talvez a resposta não seja uma única pintura, uma única sinfonia, um único poema ou um único monumento.
Talvez a maior obra tenha sido esta corrente ininterrupta de imaginação e coragem, passada de geração em geração, de mestre para aprendiz, de pai para filha, de desconhecido para desconhecido.
Uma chama que nunca deixou de arder.
Uma chama feita de beleza.
Uma chama feita de criação.
Uma chama que continua acesa em cada artista que, hoje, abre um caderno em branco, afina um instrumento, mistura cores numa paleta, toca a argila, liga uma câmara, sobe a um palco ou simplesmente ousa imaginar um mundo mais belo do que aquele que recebeu.
Enquanto essa chama existir, a humanidade nunca estará verdadeiramente perdida.
Porque são os criadores que recordam ao mundo aquilo que ele pode ser.
E graças a eles, desde a primeira centelha até ao último verso que algum dia será escrito, o universo torna-se não apenas habitável, mas digno de ser amado.
Jorge Levi