Palco
No palco, o corpo deixa de obedecer à razão
e a razão aprende a ajoelhar-se ao corpo.
Cada músculo pensa,
cada pausa sente,
cada gesto é uma pergunta feita com pele.
O olhar do público não observa — toca.
Entra pelos poros, desce pela coluna vertebral
acende zonas adormecidas do ser.
É desejo sem posse,
é presença sem mão.
Ali, dançar é um acto filosófico:
questionar os limites do possível
sem usar palavras.
O salto pergunta: até onde posso ir?
A queda responde: até onde me entrego?
A sensualidade não está no movimento explícito,
mas na tensão entre conter e ceder.
No tremor antes do gesto.
No silêncio que antecede a explosão.
O corpo sabe coisas que o pensamento esqueceu.
Sabe que existir é fricção,
que o sentido nasce do contacto,
que o outro — o público — é espelho e abismo.
E quando a energia sobe da plateia
como um sopro quente e coletivo,
o impossível deixa de ser um obstáculo
e torna-se convite.
No palco, Dansas para ser atravessado.
E nesse momento
és carne, ideia, desejo, amor e instante indivisível
Jorge Levi